Em tempos de pandemia, quais são os dez piores erros numa redação jornalística?

14 Jul, 2020

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Por Amanda Weaver

Pessoas de diferentes profissões e classes sociais relatam não ter mais disposição psicológica para seguir o trabalho da imprensa na cobertura da COVID-19. Entristeço-me quando falo com desconhecidos na rua e recebo olhares tortos ao mencionar que sou jornalista. A pandemia constitui uma tragédia humanitária gravíssima. Mas os profissionais e veículos de imprensa precisam analisar com cautela o que é realidade, incerteza, saúde e política neste momento.

Há alguma disciplina na faculdade de Jornalismo que ensine o comunicador a ser chato, praticar terrorismo psicológico e usar truques de manipulação fingindo imparcialidade? Claro que não, mas muitos espertinhos em atuação no mercado desenvolveram essa façanha por conta própria. Esses, a meu ver, não têm credibilidade. Na PUC-Rio, onde me graduei com cinco Bolsas-Prêmios por mérito acadêmico, aprendi a reportar fatos, emitir opiniões e separar honestamente esses dois canais. O consumidor do produto intelectual precisa ter ciência do que lhe é ofertado, sem propaganda enganosa.

Como toda habilidade, a escrita pode ser utilizada para atender diversas finalidades. Redator talentoso faz mágica. Aí que mora o perigo: a sedução pelo poder do próprio discurso emoldura a vaidade do enunciador. A premissa básica de uma redação jornalística é informar o interlocutor e deixar que ele construa, acerca de qualquer assunto, seu próprio pensamento – que muitas vezes é contrário aos interesses e às linhas editoriais das corporações de mídia.

Neste artigo, listo os dez piores ERROS (intencionais ou não) que observo meus colegas de profissão cometendo em tempos de uma pandemia que está mexendo com o cérebro, o emocional e o psicológico de todo mundo. Como no Brasil a questão epidêmica é vergonhosamente misturada com a política, o cuidado com o texto deve ser redobrado a fim de não sobrecarregá-lo de ideologia.

  1. Replicar fake news por falta de apuração e checagem, na sede de dar um furo.

  2. Escolher a pauta mirando no “quem” em vez do “que”. O foco obsessivo em alvos embaça o caminho dos fatos.

  3. Utilizar omissão e paleta de eufemismos para camuflar algo sobre o que não se quer falar. Deve-ser ir direto ao ponto, mesmo que ele abra uma ferida.

  4. Viciar a moeda numa só face, sem escutar todas as vozes da questão abordada.

  5. Servir a ideias, em vez de servir-se de ideias. Em outras palavras, privar-se da delícia que é exercer a profissão como um pensador crítico e politicamente livre.

  6. Publicar manchetes sensacionalistas e deslocar o lead para o rodapé. O bom jornalista entrega o ouro no início e nunca vende ouro falso.

  7. Relativizar gradação, proporção e contextualização de fatos. Insegura sobre a essência da notícia, a audiência fica confusa, mas notícias duvidosas nunca se sustentam por muito tempo (as redes sociais tratam de questioná-las logo).

  8. Focar no problema e não na solução. A criatividade é um dos pilares da Comunicação Social e deve ser utilizada para propor soluções para os problemas coletivos, por mais complexos que eles sejam.

  9. Contribuir para disseminar o pânico por meio da retórica. Por mais duros que sejam os fatos, há sempre uma maneira de reportá-los com responsabilidade, pensando na saúde psicológica da população.

  10. Subestimar o leitor. Ele é capaz de checar fatos, interpretar acontecimentos e discernir o que é fake news, militância, indução, opinião e conteúdo jornalístico neutro.

Eu mesma cometo alguns desses erros. É humano administrar defeitos. E um cenário de gestão de crise reforça a necessidade de cultivarmos qualidades como vigilância e humildade. Ninguém está blindado. Quando erramos, a ética pede o bom e velho pedido de desculpas.


Amanda Weaver é jornalista com quatro livros publicados.

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